DE HISTÓRIAS DA CAROCHINHA À SUPERAÇÕES DE VIDA

Carolina Ribeiro Coelho – Graduanda de Psicologia

Cristiane Coelho Lelis de Oliveira, sendo os dois primeiros nomes os
escolhidos de meus pais e os dois últimos, incorporados após seu casamento. Irei
contar uma história, não aquela dos contos de fadas, mas a história de uma vida
real, com aventuras, perigos, conquistas, desafios, choros e risos.
Em cinco de dezembro de 1968, minha mãe, Lenir Luzia Coelho, dava à luz,
em Juiz de Fora, a sexta filha, de uma família composta por 12 filhos. Ela dizia que
Cristiane era uma menina tranqüila, carinhosa e com muita dor de ouvido. Era
sempre levada, pelo nosso pai, nas madrugadas, ao hospital, com otite. Aos três
anos mudou-se para Belo Horizonte, onde vive até os dias atuais.
Nos relatos de minha mãe, Cris, desde sua infância, das brincadeiras de
casinha na laje de casa à vida cotidiana, sempre se preocupou com o outro. Era fiel
aos amigos, cuidava dos mais novos e se metia em brigas para defender os irmãos.
Gostava do cuidado com crianças e, por muito tempo, cuidou de uma senhora, dona
Gecinda, que tinha diversas complicações de saúde. Nessa época, já iniciara,
mesmo que de informalmente, sua vida de terapeuta.
Era uma criança dedicada aos estudos e, apesar do quadro de dislexia,
sempre se encantava com o jogo de palavras. Por volta dor 16 anos de idade e com
o grande apreço por crianças, iniciou seu trabalho com alfabetização em uma escola
de educação infantil. Trabalho este que foi concedido com a substituição de nossa
irmã, Cleide. Com o passar dos anos, sentiu a necessidade de aprimorar seus
conhecimentos com a Língua Portuguesa, e inicia-se no curso de Letras, na
Universidade Federal de Minas Gerais.
Enquanto professora de Educação Infantil, Cristiane adorava ensinar o jogo
de palavras, as ligações entre as letras, os sons que elas emitem e o sentido que
elas tinham para as crianças. Foi com toda essa paixão e paciência que, no início
dos anos 90, alfabetizou uma garotinha, “pirracenta”, na garagem de casa. Essa
garotinha era eu, que, ao sair da escola onde Cris dava aula, chorava muito por não
ter mais ao seu lado a “professora-irmã”. Mas ela não se contentava em ser apenas
uma professora, já que sempre compreendeu que o ensino vai além das palavras.
Além de propor uma forma lúdica de aprendizado, com desenhos, canções e
brincadeiras, propunha um aprendizado pelo afeto e cuidado, sendo que, muitas
vezes esse cuidado se estendia para as famílias das crianças. Adorava visitar seus
alunos, fazer passeios, propor encontros com os pais, entender a dinâmica familiar e
acolhê-la em suas subjetividades.
Mais adiante, além das aulas particulares, lecionou também, em escolas
públicas e privadas de ensino médio. Em uma das escolas, ela resolveu “dar uma de
artista plástica”, promovendo um mutirão com os alunos. Pintaram um antigo
laboratório abandonado da instituição e depois da reforma, esse espaço se
transformou em uma sala de aula repleta de saberes e afetos.
Como tais atos eram difíceis de serem realizados institucionalmente, ou seja,
através da escola, Cristiane montou uma sala, em um “quartinho” de nossa casa,
para acolher, não só as dificuldades de aprendizado, mas sim as dificuldades nos
diversos contextos da vida de suas crianças. Desde as questões afetivas às sociais.
Nos natais, Cristiane saía pelas ruas do bairro recolhendo mantimentos,
roupas e brinquedos para ajudar as famílias mais carentes financeiramente. Sempre
terminava suas aulas com ensinamentos que iam além das palavras, passando por
valores morais, sociais e afetivos.
Em casa, com sua família, propunha, cotidianamente, reuniões, cafés, chás
almoços, sempre com o intuito de agregar valores humanos, discutir as relações,
propor mudanças e saídas para as diversas dificuldades da vida familiar. Com os
irmãos mais novos, e também com os mais velhos que ela, tinha sempre uma
palavra, um presente, um passeio e um afago, que contribuía para o crescimento
humano de todos.
Na vida amorosa, Cristiane era reservada, reflexiva e mantinha-se sempre
numa posição de observadora. Teve poucos relacionamentos, porém todos muito
intensos. Seu primeiro namorado era um homem muito afetuoso e que gostava do
contato com a natureza, todavia seu interesse intelectual e crítico era restrito. Já o
segundo, era o inverso. Era um homem extremamente intelectualizado, artista
plástico, todavia, muito urbano. Assim, entre a cidade e o campo, Cristiane acaba
por encontrar seu atual marido, que mantém o afeto pela natureza e o interesse
pela cidade intelectual.
Tais vivências e interesses já a guiavam para os rumos da Psicologia. Foi
quando resolveu iniciar o curso na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Com muita dificuldade, mas sem medo de enfrentá-las, Cristiane termina sua
graduação em Psicologia e inicia os atendimentos psicoterápicos no consultório
particular. Prestes a iniciar uma nova fase em sua vida, mas seu encanto por
crianças e seu desejo em ser mãe falaram mais alto e fizeram com que adiasse sua
caminhada na psicologia. Mesmo cursando psicologia, Cristiane encontrou tempo
para criar um cursinho pre vestlibular chamado Intellego. Muitos alunos que
passaram por ele, conseguiram aprovação em vetibulares e cursos técnicos.
Com o nascimento de sua filha, após dez anos de casada, Cristiane decide
dar uma pausa em sua vida profissional, para se dedicar inteiramente à sua família,
filha e esposo. Sempre foi uma mãe atenta, presente, carinhosa e preocupada com
a formação humana de sua filha. Desse modo, sempre a ensinou que os
sentimentos podem ser transpostos em palavras, e assim, possíveis de serem
decifrados e conduzidos de forma a trazer mais bem estar emocional e físico. Após
dois anos de dedicação exclusiva e 03três anos trabalhando somente em meio
horário com o objetivo de acompanhar os ensinamentos de sua filha. Nesse
período, observou os resultados dessa dedicação que se refletiram nos atos
corajosos, sensíveis e humanitários da personalidade de Beatriz.
Em 2009, Cristiane cria o projeto Freud Além do Divã, que de pois se
transformou em Vivendo Além do Divã, para uma atuação com abrangência. Nesse
projeto, uma forma inovadora de atendimento psicoterápico, o consultório é
itinerante e vai ao encontro dos pacientes e suas dores. Se desvencilhando das
quatro paredes que limitam o campo de atuação e as inúmeras possibilidades de
atuação da psicologia, Cristiane consegue romper com as formalidades e tornar
essa especialidade mais afetiva e acessível a pessoas de todas as classes sociais.
Em 2010, com o sucesso de suas viagens ao interior para atendimentos, funda a
empresa Vivendo Além do Divã Cursos Vivencias Ltda para que mais pessoas e
empreas possam se beneficiar dos seus atendimentos e cursos de reeducação
afetiva . Assim, ela opta por traçar novos caminhos. Caminhos esses, que apesar de
novos, não fogem à linha do ensino e do afeto, conjugando com seu lado professora
e psicóloga.
Atualmente, eu, no ultimo ano de faculdade de Psicologia, aos 26 anos de
idade, me pego lembrando de suas “histórias da carochinha”, que sempre tinha, no
final, uma lição: respeitar as pessoas, colocá-las para refletir sobre suas questões e
propor mudanças para que tenhamos uma vida biopsicossocial e espiritual mais
saudável. Encantada com suas histórias, hoje estou prestes a compor sua equipe de
trabalho.

Carolina Ribeiro Coelho – Graduanda de Psicologia

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