Mulher … por que você não desmaia?

Stetina Trani de Meneses e Dacorso
CPB-RJ

Eu teria feito melhor se tivesse comprado chapéus
e vestidos bonitos que realçassem minhas qualidades naturais …
Esta arte miserável é feita mais para velhos ultrapassados
e as caras feias do que para uma mulher relativamente
bem dotada pela natureza.

(Camille Claudel)

A frase titulo foi dita por uma mulher de 63 anos, casada, encontrando-se em processo analítico há cinco anos. Considera sua analise a “melhor coisa” que escolheu fazer na vida. No inicio de nossos encontros apresentava fortes traços anais: posição muito critica frente à vida, limpeza e organização às questões do cotidiano. Outra de suas frases: “Eu daria um ótimo militar, se é para fazer, tem de fazer, não tem nada de conversa mole”. Ao longo dos anos sua tendência a ter soluções “bem melhores” para os impasses da vida que as pessoas à sua volta viviam, diminui bastante passando a considerar: “tudo isso é muito complicado, cada um sabe de si”. Há poucos meses, quando uma amiga desabafou relatando um conjunto de situações muito difíceis, ela falou que nem pensou, “saiu sem querer”: “Fulana, por que não desmaia?” Inquirida sobre o sentido da frase, ela riu, explicando que as situações teriam de ser resolvidas, mas enquanto ela estava desmaiada, podia descansar, ninguém exigia nada e outras pessoas poderiam ter algumas idéias … depois, era depois …

Pensando nessa frase – humorística, criativa – e com outras tantas ouvidas de mulheres em situações de sobrecarga, comecei a analisar sobre o tão falado excesso de funções a que elas se submetem. As mulheres que tem procurado analise demandam uma compreensão para sentimentos que não conseguem especificar, mas sentindo que os tem deixado de lado em nome de um excesso de razão e objetividade. O que me chama a atenção é que não se sentem sobrecarregadas, ou melhor, reconhecem o excesso, mas não querem abrir mão de nada. Consideram que não estão encontrando um caminho que administre tudo de forma satisfatória. Ao longo da historia da humanidade, a mulher tem sido objeto de inúmeros estereótipos: pecadora, maligna, demoníaca, insatisfeita, bruxa, santa, má, histérica, promiscua, sapata, frigida, passiva, burra, manipuladora, bela, feia, gostosa, auto suficiente e muitos outros …

Como um se humano consegue sobreviver a tantos rótulos e ainda tendo que dar conta de si para sentir-se bem? É um mistério … só desmaiando … A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida, ensaiar mil vezes a séria despedida, aquela morte real do gastamento do corpo, aquela coisa mal resolvida daquela morte florida cheia de pêsames e amigos chorosos cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos que eu já tô ficando especialista em renascimento hoje, praticamente, eu morro quando quero; às vezes só porque não foi um bom desfecho ou porque eu não concordo ou porque eu mesmo me enrolo não dá outra: tiro o chinelo e fico aí camisolenta em estado de éter, não atendo telefone, não atendo campainha, tô nocauteada, tô morrida! (Elisa Lucinda, 1977)

Freud (1932) teoriza que as mulheres em decorrência da ausência do temor de castração, permanecem mais tempo no Complexo de Édipo, causando prejuízo na constituição do superego que nunca será impessoal, inexorável e independente de suas origens emocionais. As mulheres apresentam menos senso de justiça, não se sujeitam às exigências da vida e são muito influenciadas por sentimentos de afeição e hostilidade.

Atribuímos à feminilidade maior quantidade de narcisismo, que também afeta a escolha objetal da mulher, de modo que para ela, ser amada é uma necessidade mais forte que amar … parece que as mulheres fizeram poucas contribuições para as descobertas e invenções na historia da civilização (id, 131)

Algumas dessas formulações, à partir da clinica e da observação da cultura há muito necessitam de revisão. A contribuição das mulheres tem sido inquestionável em todos os setores. Percebe-se uma ânsia de produção e uma exigência excessiva ser amada e desejada continua importante, mas não ocupa o primeiro lugar. Não quero namorar, mas não quero perdê-lo … não tenho tempo para perder com namoro … dá muito trabalho e tenho muita coisa para fazer … (em termos profissionais) (Carla, 25 anos, terminou MBA em finanças)

Não precisa ficar na minha casa (namorado de fora) … não quero morar junto … minha vida é tão confortável … quero namorar … ser namorada … só (Maria, 41 anos, divorciada, assistente social)

Torok (1964) analisou as mulheres à partir da analidade. Para ela o desejo pode ser satisfeito, mas a inveja é destrutiva. Por baixo da inveja existe o desejo de ter. Deseja-se ter algo idealizado – o órgão masculino é dotado de uma potência infinita, benéfica ou maléfica, segurança e liberdade absolutas. O seu possuidor esta imune a toda angustia e culpa, tendo total acesso ao prazer, amor e realização de todos os desejos. O objeto idealizado, invejado e ausente em si mesma é por culpa da mãe que a fez defeituosa. Que mãe é essa que tem poder de fazer alguém com ou sem uma coisa/ É a mãe soberana que tem a autoridade, que comanda atos – proibição masturbatória, controle esfincteriano. A primeira idéia de pênis ocorre através do bolo fecal – apreensão anal do pênis, portanto, uma relação anal com a mãe. É para a mãe que se fará uma solicitação e vai se cobrar uma ausência … pelo receio da ameaça dessa mãe controladora, a menina abre mão de seus atos de dominação esfincteriana em proveito da mãe, resultando em agressividade e medo da mãe com relação ao interior do seu corpo e conteúdos, pelos quais a mãe tanto se interessa. Os atos abandonados – ligados à fase anal – é que permitiriam à mulher atividade, independência, criatividade e capacidade orgástica. A soberania materna é ameaçadora por isso a mãe deve ser tranquilizadora, através do recalque do conjunto de atos que identificaram a menina à mãe soberana em seus atos.

Somos assim conduzidos a incriminar alem do recalcamento, conflitos pré-genitais anais, uma inibição especifica, total ou parcial da masturbação, do orgasmo e da atividade fantasmática concomitante. A “inveja do pênis” aparece então como uma reivindicação dissimulada – não do órgão e dos atributos do outro sexo – mas de seus próprios desejos de maturação e auto-elaboração por meio do encontro de si na conjunção das experiências orgásticas e identificatórias (id, 156)

Ao sair da fase anal, a menina deveria poder realizar em fantasias masturbatórias a identificação simultânea com os pais genitais. Ocorrem, porem, duas dificuldades: 1) de caráter anal: a autonomia na satisfação masturbatória significa uma disposição sádica da mãe e de suas prerrogativas, 2) de caráter edípico: uma realização fantasmática da cena originaria pela identificação vai implicar numa exclusão da mãe. Se essas dificuldades não são superadas ocorre: a) lacuna na identificação com o pai, na especificidade de seu sexo; b) lacuna na identificação com a mãe enquanto parceira genital deste:

O drama da relação materna especifica da menina concretiza-se no seguinte fato: quando, para se libertar da mãe anal, ela tenta apoiar-se no pai, encontra-se em presença do objeto heterossexual da mãe e, em conseqüência, uma vez mais, em oposição de interesses com esta última. Atacada simultaneamente em dois planos, a mãe não deixa de aparecer como eminentemente perigosa: prestes a ser integralmente destruída, ela ameaça destruir integralmente. A superposição, no mesmo objeto, do domínio e da rivalidade, bloqueia as saídas da fase anal e obriga a menina a renegar seus desejos. (id,180)

A analise de Torok (considerando-se a edição francesa de 1964, e não sua tradução brasileira em 1988) quatro décadas depois, encontra a mulher em outra situação. Historicamente a mulher era a que ficava, esperava passivamente e chorava a ausência, enquanto os homens desbravavam, caçavam, conquistavam … funções, atualmente, exercidas por inúmeras mulheres.

Meu marido é funcionário publico, tenho cinco filhos estudando fora. Adoro o que faço. Durmo no máximo quatro horas por noite, levanto e vou pesquisar. Chego em casa todos os dias as 23:30 (Soraia, 55 anos, advogada)

A mulher, por diversos motivos, tornou-se a caçadora, a provedora. Não é nossa intenção no presente trabalho pesquisar sobre organizações psíquicas e/ou sintomatologias tradicionais ou não. Mas, ouvir o que dizem essas mulheres que participam ativamente, cada uma a seu modo, do mundo moderno. Um mundo que exige excelência, independência, criatividade, produtividade e ao mesmo tempo, uma flexibilidades de função que permita mudar de emprego, assim, que um melhor se apresente. A exigência de competição está sendo levada ao extremo:
Estou a 3 anos nesse emprego, tenho de mandar currículo para outros lugares, estou ficando ultrapassada, pessoas da minha idade, na mesma área, já estão inseridas no mercado de ponta. (Carla, finanças, 25 anos)

Outro fator é a velocidade, rapidez em aprender, fazer o maior numero de coisas, conhecer muitas pessoas, estar em muitos lugares, tudo sem que haja desperdício de tempo. Não podemos esquecer o narcisismo exacerbado, onde o valido são as idiossincrasias individuais. Ninguém é prisioneiro de tradição, normas e leis inquestionáveis, por mais singular que uma pessoa se sinta ou aja, haverá sempre uma “tribo” que a faca sentir-se bem. O ideal narcísico é grandioso, a independência do mundo e do outro deve ser visível, denunciando uma capacidade criativa, produtividade, potencial para resolver questões rapidamente. Uma sociedade do espetáculo, da imagem, todas eloqüentes por si mesmas – vide os out-doors – coloridas, bela, invadindo os sentidos … nada de perder tempo com detalhes, explicações excessivas …

Todos os dias fico 2 horas na academia, vou primeiro para a esteira e já estou pensando na musculação e no que vou fazer depois da musculação. (Paula, trabalha com grupo de drogadito)

Minha agenda é toda riscada, quero fazer tudo de uma vez, não suporto a idéia de deixar para quando der … (Paula)

Antes eu falava: para o mundo que eu quero descer, hoje não … pode continuar girando, mas eu quero um camarim só para relaxar um pouco … (Vera, 40, pequena empresaria)

O sentimento de que se é feliz e tem qualidade de vida advém da convicção de preencher todas as exigências num mínimo de tempo. Não podemos esquecer da beleza, da juventude, saúde, eroticidade e sedução, só desmaiando …

Algumas mulheres procuram atender a alguns objetivos, outras consideram que é possível atingir a todos e outras tantas se apegam a um que perseguem de forma obsessiva. Não temos a intenção de analisar as opções feitas, nem entrar no mérito, se são excessivas ou não. Consideramos que essa analise diz respeito a cada mulher em particular. Nos propusemos a tentar analisar essas questões por outra via, porque esse é o mundo que vivemos. Podemos teorizá-lo, adjetivá-lo, patologizá-lo, que não fará diferença … As pessoas, no caso, as mulheres, terão de encontrar uma saída interna para a dor dos dias atuais, e nisso, podemos todos pensar juntos …

A mulher acabou criando para si um ideal soberano, autoritário, manipulador e ativo como a mãe anal de Torok. Um ideal implacável que cobra seu preço através das angustias que todos os clínicos conhecem …

Ah, não quero mais nada com ele, perdi a paciência, é muito lerdo, devagar, não me acompanha (Suely, 35, professora universitária)

… ele é muito legal, mas um duro, vou pagar as contas? Nunca … (Suely, sobre outro namorado)

O homem não sendo considerado um parceiro de vida. Antes o dominador, autocrático, dono da vida, desejo e morte da mulher, sua razão de ser. Hoje, recusado como frágil, insuficiente, incapaz de compreender, de satisfazer sexualmente … enfim, alguém muito falho … É preciso considerarmos seriamente essa disputa e não apenas pela “inveja do pênis” e seus derivados teóricos. Nós mulheres somos mais corajosas, empurramos os homens para frente, ensinando, incentivando, nós os ultrapassamos … (Claudia, 40, casada, psicóloga)

Se Torok se referia ao recalque da atividade anal, o momento presente parece denunciar o contrario. Uma auto critica e exigência estratoféricas na atividade, auto suficiência e soberania:

… pago minhas contas, resolvo questões de casa, administro tudo no trabalho, sei arrumar tomadas, arredar moveis, trocar lâmpadas, bons amigos para sair, conversar, viajar … por que preciso de um homem? (no sentido da relação compromissada) (Maria, assistente social)

A própria mãe anal soberana, onde o parceiro, companheiro para o dia a dia é encargo supérfluo, trabalhoso … com quem não se divide, nem partilha.
Em alguns momentos abençoados, algumas mulheres conseguem através da veia humorística, se aliviarem da excessiva pressão interna, sem negar a realidade, nem as exigências que lhe são feitas. Freud (1927) se refere ao humor como um dom, a capacidade que têm alguns superegos de serem condescendentes. A nossa veia de trabalho é a partir dessa leitura superegóica. O humor denuncia o reconhecimento do excesso, de uma realidade muitas vezes, imutável, de uma condição de solidão. Mas que talvez, mesmo assim …

O principal é a intenção que o humor transmite, esteja agindo em relação quer ao eu quer a outras pessoas. Significa: “Olhem! Aqui está o mundo, que parece tão perigoso! Não passa de um jogo de crianças, digno apenas de que sobre ele se faca uma pilhéria!”

Se realmente o superego que, no humor fala essas bondosas palavras de conforto do intimidado, isto nos ensinará que ainda temos muito a aprender sobre a natureza do superego. Ademais, nem todas as pessoas são capazes de atitude humorística. Trata-se de um dom raro e precioso, e muitas sequer dispõem da capacidade de fruir o prazer humorístico que lhes é apresentado. (id, 194)

Nos últimos meses, tem surgido na mídia, através de jornais, revistas, debates e entrevistas na TV, uma idéia, um movimento, interesse, não sabemos … de que as mulheres querem retornar para o interior do lar, não Ter tantas responsabilidades, cansadas das batalhas externas. De qualquer forma, outra posição radical … ou totalmente fora e independente ou totalmente para dentro e dependente …

O humor, estudado de forma mais profunda, menos desvalorizado, pode ser a via do acordo, a solução criativa e conciliatória para as exigências internas …
Olhei a situação e pensei; vou deixar rodar … pior que isso … impossível. (Suely, numa reunião onde estava sendo muito questionada por uma determinada atitude)

É um estudo que está no estado germinal, porque se o humor remete do superego, faz-se necessário estudar identificações, relações com os pais a partir dos impulsos eróticos e principalmente agressivos. A inveja do pênis num mundo onde a idéia de pai, homem, lei é transmitida de outra forma, graças até à própria difusão da psicanálise. Mas é um aprofundamento que exigira um tempo maior de escuta …
Enquanto isso:
TINHA UMA RIMA NO MEIO DA MOQUECA

Minha casa esta uma bagunça só
Quando é assim
A alma também está e por isso a casa fica,
Ou a casa fica por que a alma está?
Nessa bagunça retórica
Não há verso
Que se possa distinguir do gume das calcinhas
Achei meu soutien meia-taça preto rendado
Ao lado do molho shoyo de soja
Procuro quem se despoja pela casa
Como uma romaria de elisas …
Meu filho diz que a Lucinda
É severa e arrumadeira

E vem atrás ajeitado
Tudo o que outro espalha
Mas aí vem a outra
Sutil dona que suja os copos outra vez,
cozinha, sobrecarrega panelas e cinzeiros
mas ninguém vê
Mistura as cuecas do filho
Às flores do mal de Baudelare
E ainda tem uma outra que é poeta
E tenta com um poema
disfarçar tudo
Usando elegantes objetos para descrever a balbúrdia
Ela é cuja sobre a qual nos salvamos todas
No padecer.
Mas há papeis espalhados
No meio dos resultados
Chamex me chamam
A vasculhar a nado
As poeiras diversas que um cotidiano tem. Amém.
Ela ainda reza!
Mas no fundo ”e macumbeira
guarda dinheiro na caixa do tarot
E há delineador na gaveta cuja etiqueta diz:
DOCUMENTOS
Esse é o invento
Essa odisséia em obras
À qual retorna todos os dias
E se proclama aos sete ventos …
Agora para falar a verdade
Eu mesma não agüento!

(Da serie “Uma métrica por uma Domestica,
setembro / 91)
1-Trabalho realizado para o XIV Congresso do Circulo Brasileiro de Psicanálise – 2002. GOZO, LIBIDO E SEDUÇÃO
2- Psicóloga psicanalista, membro do Circulo Brasileiro de Psicanálise RJ; Didata da sociedade Brasileira de psicoterapia, Dinâmica de Grupo e Psicodrama Juiz de Fora; Professora de psicologia do Centro de ensino Superior de Juiz de Fora.

REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA

CHASSEGUET e colaboradores. Sexualidade feminina. (edição francesa 1964) Porto Alegre : Artes Medicas, 1988.
DELBÉE, Anne. Camille Claudel, uma mulher. São Paulo : Martins Fontes, 1995.
FREUD, Sigmund. O humor (1927) . In: Edição Standard Brasileira das Obras
psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro : Imago, 1976. Vol. XXI
____. Conferencia XXXIII – Feminilidade. In: ____. Rio de Janeiro : Imago, 1976. Vol. XXII
LUCINDA, Elisa. Tinha uma rima no meio da moqueca. In: Aviso da lua que menstrua, xerox vendido pela própria autora. Rio de janeiro : 1993.
LUCINDA, Elisa. No elevador do filho de deus. In: O semelhante – CD 1997, Rio de Janeiro
ROUDINESCO, Elisabeth & PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1998.
TOROK, Maria. A significação da inveja do pênis na mulher. In: SMIRGEL, Janine. Sexualidade feminina. Porto Alegre : Artes Medicas, 1988.

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